sábado, 16 de janeiro de 2010

WHO NEEDS MEN?



Eu deveria estar conhecendo o mundo lá fora, mas em vez disso estou aqui no albergue com um casal de meninos super preconceituosos. Sabe aqueles gays que não se misturam com mulheres? Eu percebi isso assim que desci para a recepção e vi um deles comprando a segunda garrafa de still water - enquanto eu já estava na minha segunda xícrinha de água da torneira. Lancei a polêmica da água potável, professei uma pequena teoria sobre as torneiras europeias e dei muita risada com o recepcionista, enquanto o garoto nem olhou pro lado.

O amigo/namorado dele chegou cinco minutos depois, já reclamando com o recepcionista sobre algo que eu não entendi direito. Sabia que ele queria se mudar para o meu quarto (de onde eu e um grego fedido fizemos o check-out hoje), mas não entendi o por quê. Então decidi prestar atenção. Diálogo entre os dois:

-I can't believe it, man!, ele disse, no seu melhor jeitinho cult/idiota, contrariado.
-Is it that bad?
-There are girls, it's enough.

Dá pra acreditar???

O pedido dele foi negado e o clima pesou um pouco aqui na recepção.

Bom, não vou me estender muito neste post, apesar de ter história boa suficiente para escrever um essay.

Vou misturar as histórias de anteontem e ontem à noite.

Anteontem, 14/01, quinta-feira.
Os primos Rodrigo e Tiago, que eu conheci em Praga (e por quem desenvolvi um grande apreço), decidiram ir pra balada hoje à noite (como sempre fazem). Eu cheguei na Cracóvia na quinta de manhã, mas só fui encontrar com eles umas 19h, sem querer, na porta do albergue. Eu voltava de um passeio (naquele em que comentei ter comido uma pasta gostosa acompanhada de um lambrusco tinto - ah, também comprei um sabonete da L'Occitane. Minha pele estava horrível e decidi que seria um dinheiro bem gasto: 30 slots). Eles estavam de saída para comprar a Wyborowa, meio-culpada pelo que aconteceu mais tarde (a outra metade da "culpa" é minha mesmo).

Bom, acho que serei obrigada a apresentar aqui o Fernando, que também estava hospedado no albergue. Natural de Porto Alegre, estudante de medicina, tem jeito de malandro e algumas meninas podem até considerá-lo bonito - principalmente as polonesas, que piraram em todos eles -, mas eu não acho. Depois do esquenta, em que misturei a vodka com quentão, acho que meu conceito de beleza mudou um pouco.

Aconteceu que fomos os quatro para a balada mais famosa da cidade (vou pegar o nome com eles depois para publicar aqui, vai que você fica com vontade de ir pra Cracóvia, né?). Eu era a mais desanimada da turma - sempre tive uma preguiça infinita desse tipo de balada, onde gente que nunca se viu na vida dança músicas que nunca ouviu na vida fingindo que está confortável com aquela situação constragedora, até gastar metade do dinheiro que tem para fazer tudo isso De novo, agora sob o efeito de álcool - pra não ter que se lembrar daquela merda toda no dia seguinte.

Na porta da balada, eis que o segurança, o típico babaca que me faz sair do sério (e quem me conhece sabe bem que pouquíssimas coisas me fazem sair do sério) disse que a calça do Fernando era "inapropriada". Eu já lancei: "Então tá, vamos???" Mas os meninos ficaram insistindo com o cara, que muito deseducadamente os ignorou. Então eu não me aguentei e disse: "What would be, in your opinion, a proper trouser?" Ele apontou para o jeans de segunda que ele próprio vestia. E eu: "hoho. This?" Ele: "Yeah. Don't you think?". Naquele ponto, já tinha entendido a brincadeira de quem-consegue-ser-mais-sarcástico-em-um-diálogo-curto: "I think our concepts are way too diferent".

Silêncio. Minha mãe costuma falar até hoje que eu sempre quero ter a última palavra em qualquer discussão. Durante toda a minha vida, neguei a acusação veementemente.

Ontem, tive que assumir: teria argumentos suficientes para responder até o final se ele continuasse. O ambiente ficou tenso mas, mesmo assim, os meninos resolveram ficar. Eu e o Fernando, então, saímos em direção a outra balada - eu não queria ir, mas também sabia que o Fernando queria sair e não queria estragar a noite dele (porque eu sou idiota, né?). Fomos para uma outra balada, Diva (sempre tem uma balada que se chama Diva em qualquer parte do mundo, é impressionante!). Preciso dizer que foi uma experiência cultural bacana. Parecia que entrávamos em um set de um filme underground selvagem, com polonesas dançando incrivelmente empolgadas, até demais na minha opinião. Aqui, elas abordam os meninos (aqueles que elas nunca viram na vida), pulam em cima deles com as duas pernas entrelaçadas nas deles, tipo montadas mesmo, sabe? Não dá para acreditar. Juro que levei um tempo para me recuperar do choque.

Fomos beber uma cerveja local no bar da balada. A pint é enorme e até que tava gostosa. Wyborowa + cerveja polonesa + quentão = suficiente para nos fazer levantar e nos juntar àquela polonesada toda. Um estranho fantasiado de padre veio falar comigo, apesar do Fernando ali do meu lado. Eu levei um puta susto. Do nada, o cara começou a gritar na minha orelha o que, na hora, me pareceu algo do tipo: "Não é assim que se dança aqui!!!!! Você tem que pular nos meninos igual a elas e bater o cabelo com mais força! MAAAAAAAAAAAIS!!!!!". Mas na hora eu desconfiei que poderia não ser isso o que ele tentou me dizer. "Sorry, I can't understand you, I'm afraid". Muito rapidamente, ele traduziu: "No problem, baby. I said: do you wanna get rid of your sins tonight?". Claro que eu não tive outra alternativa a não ser cair na gargalhada. Sério. Entretenimento dos bons.

Depois disso, o Fernando (que dançava comigo de um jeito normal até aí) perdeu a noção completamente e me beijou. Não vou me estender muito sobre a polêmica do comportamento dos homens brasileiros para com as mulheres. O beijo não foi nada ruim, mas preciso dizer que fiquei muito, muitíssimo irritada, mas me esforcei para não transparecer. Então, falei: "Vamos sair daqui?" E ele respondeu um pronto "vamos!", do tipo: "claro, para que perder tempo na balada se você tem um quarto só para você no albergue???" Eu desisti de responder qualquer coisa.

No albergue, ele entrou no meu quarto e não queria mais sair. Fui grossa, repeti mil vezes que queria dormir sozinha e ele mandou um "te acalma, só quero deitar contigo!", naquele sotaque que eu comecei a abominar. Ele deitou. Eu sentei. Será possível uma coisa dessas? "Olha, não quero ser chata, mas gostaria bastante que você saísse agora". Ele começou a me perguntar "por quê? Mas não tá bom?" Minha última alternativa foi falar que tenho namorado (dá para acreditar que precisei fazer isso? Não minto assim para fugir de alguém desde a adolescência). Sabe o que ele respondeu?

-Então o que tá fazendo aqui comigo? (ainda aquele sotaque)

-O QUÊ???

Nossa, virei uma onça. Fiquei mais brava do que tinha ficado com o polonês das calças baratas na balada. E comecei a gritar muito, foi hilário!

-EU COM VOCÊ? FAZ UMA HORA QUE TO TENTANDO ME LIVRAR DE VOCÊ E VOCÊ NÃO VAI EMBORA!!!!

-A reação dele foi engraçada, foi se encolhendo todo e finalmenete disse um "tá", baixinho. "O cara que vai vir amanhã é o teu namorado?", ele insistiu em continuar.

O cara que viria "ämanhã" é o Rulian, assim com "R" mesmo. Eu comentei neste blog sobre ele, o brasileiro que demorei pra pareceber que era brasileiro e que, fofo, me ajudou quando eu estava perdida às 7h da manhã na estação de trem da Cracóvia. Até me levou ao meu albergue e esperou que eu fizesse o check-in!

-Claro que não.

Ele foi embora, deixou a chave do quarto comigo. Algumas horas depois, acordei e, por uns cinco segundos, não conseguia lembrar por que eu dormia de calça jeans e um monte de jaquetas e ainda tinha as lentes nos olhos. Mexi minha mão esquerda que, fechada, ainda segurava a chave firmemente. Lembrei de tudo e fiquei muito irritada, muito mesmo.

Já sei que a maneira com a qual os homens brasileiros (a maioria) tratam as mulheres numa abordagem simples pode ser polêmica. Me lembro de comentar com o Fernando, meu irmão, sobre o Antoine, poucos dias depois de ficar com ele, lá no Brasil, dois anos atrás. Estávamos comendo os dois sentados na mesa da sala e eu, que contava apaixonada como acabara de conhecer o francês, lhe disse que os europeus eram muitíssimo mais gentis que os brasileiros (isso porque eu nunca tinha sequer viajado pra Europa). O Fernando ficou puto, muito mesmo, e defendeu a classe masculina brasileira. Ele tinha razão. O Antoine era só mais um charlatão e, afinal, a classe de filhos da puta é internacional, não é mesmo? Com os anos, percebi que o Fernando tinha mesmo razão. Mas agora, depois de tanto tempo sem ficar com um brasileiro, vejo que não é bem assim.

O Alastair foi para o Brasil e voltou dizendo que o jeito com que os brasileiros conversam com as mulheres é "crazy". "Eu tento imaginar tratar uma menina desse jeito aqui... Chegar falando que ela é a mais linda e tentar beijá-la!" E a gente riu um monte juntos. "Credo, é um horror mesmo", foi a minha resposta. Pena que não dá pra traduzir a expressão "uó" para o inglês.

Tá aí, mais um motivo, além da reforma ortográfica, para eu não voltar ao Brasil no dia 8 de fevereiro.

Ontem, 15/01, sexta-feira.
O dia foi pesado em Auschwitz e meus olhos ainda estavam até um pouco inchados pelas lágrimas que eu tentei segurar em vão.

((vou escrever um post só sobre Aushwitz e a dor dos outros no meu caminho para Viena, hoje à noite.))

Na volta, acompanhei os meninos, Rodrigo, Tiago e Rulian, que acabaou virando amigo deles, para a estação de trem, na tentativa de comprar o meu bilhete (vou pegar o mesmo trem que eles, só que hoje à noite, e encontrá-los no albergue Wonbats, ou algo assim, preciso fazer a reserva.

Voltei, sabia que o Fernando estaria por aqui e já tinha todo um discurso de fuga preparado na minha cabeça. Mas para entrar no albergue, eu precisava digitar uma senha de quatro digitos que me escaparam da memória. Fiquei tentando várias combinações diferentes entre 3, 1, 9 e 7, fiz um N fatorial mental, mas não rolou.

De repente, comecei a prestar atenção na música que tocava nos fundos. Fui atraída por ela, abri uma portinha camuflada pelo grafite da perede. Abri, entrei. O bar, bem alternativozinho, é exatamente o tipo de lugar em que consigo me sentir muito bem. E tava rolando uma noite Karaoke!! Cheguei, sentei em um banquinho e fiquei cantando junto com os poloneses! Um deles me chamou para sentar com eles. Fui pegar uma cerveja antes. Eu não sabia, mas aquela era a mesa dos amigos do Dj! Eles me trataram muito bem e instantaneamente eu virei melhor amiga de uma menina muito gente boa que estava com eles. O Dj era fã de Sepultura e me perguntou se essa palavra tinha algum significado em português. Eu expliquei que é o lugar onde enterram os mortos, tá certo, né??? haha

Quando falei que era brasileira, foi uma festa. Me perguntaram até se no Brasil tínhamos rei!!!! Diversão garantida!

Decidi dedicar a minha noite, que estava sendo MUITO LEGAL, à Carla, e às várias noites MUITO LEGAIS que ela já me proporcionou em Dublin! Adivinha o que cantei, Carla???

We can work it out!! Pois é.

Depois de beber mais e fumar cigarros do Dj, decidi cantar mais uma: With or without you. Engraçado o jeito que o Dj me apresentava pra galera: "jhkjhsadkjhskjdhjdkhddhajbrazilianjcjkgakjsc". Só entendia a minha nacionalidade em algum lugar no meio da frase, daí me tocava que era a minha vez! Assim que a música começou, uma galera entrou no bar e todo mundo começou a cantar comigo! Foi tão legal!

Já passava da 1h e a noite, programada para ser tranquila, foi mais uma vez muito louca. E, para terminar com chave de ouro, um polonês decidiu dedicar a próxima música à Silvia e ao Max! Já sabem qual, né?

Lambada!

Choooooorando se foi... Aí não aguentei, né? Larguei as minhas coisas e fiquei dançando lá no meio, ao som do sotaque puxado do polonês cantando em português, com a galera que levantou para dançar junto!!

Viu só?
Quem precisa de homens???

((FOTO 1: Parede do corredor do albregue que eu, sem lembrar da senha, não conseguia alcançar. (depois a barwoman veio comigo até a porta e apertou um só botão. A porta abriu na mesma hora, que verognha!))

((Foto 2: Corredor do albergue com a portinha do bar REAKTYWACJA, o melhor da Cracóvia!!!!))

5 comentários:

  1. Seu irmão está certo. A classe de filhas da puta é internacional, mesmo.

    Idéia pra pós: estudo de antropologia urbana com pesquisa de campo sobre a abordagem masculina em espécies do sexo oposto durante eventos festivos.

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  2. ju, acho que a regra 37 (nao rir das amigas) já era: rolei no chao até com esse post. muito bom!

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  3. Advogado das polonesas17 de janeiro de 2010 03:57

    Ju, você precisa considerar outras possibilidades e pontos de vista, sempre.

    Por exemplo.

    Você não pode concluir que na Polônia as meninas "abordam os meninos (aqueles que elas nunca viram na vida), pulam em cima deles com as duas pernas entrelaçadas nas deles", simplesmente.

    Não descarte a possibilidade de o cartaz/banner/flyer da Diva daquela noite ter a seguinte frase: "NOITE DO PULO FEMININO: MENINAS PULAM NOS MENINOS COM AS PERNAS ENTRELAÇADAS!". Como estava em polonês, você não entendeu nada e entrou nessa furada.

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  4. Advogado dos brasileiros17 de janeiro de 2010 04:01

    Sra. Juliana,

    Quanto ao beijo do Fernando, acho exagerado dizer que no momento ele "perdeu a noção completamente". Essa é uma situação complicada, principalmente para homens, que geralmente são os que precisam tomar a iniciativa do beijo. Você pode dizer: "Ah, mas eu não dei sinal algum que queria um beijo." Ora, COMO ele poderia saber? Cada mulher age de uma maneira diferente, é impossível. Os homens TÊM que arriscar, é inevitável. Pouquíssimas mulheres deixam explícita a sua vontade de receber um beijo. Ao beijá-la, eu acho que ele estava é com noção total de seus atos.

    Pô, você o acompanhou para a balada do pulo feminino. Pelo que você mesma escreveu, aparentemente ficou surpresa com a abordagem do padre, "apesar do Fernando" ali do seu lado. "Apesar do Fernando" -- ou seja, você mesma admite que quem olhava de fora poderia entender que vocês eram um casal. Ou seja, o Fernando poderia achar que você estava a fim. (Ou poderia entender que não. Nunca há a certeza. E homem algum deve aguardar a certeza para tentar o maldito beijo.)

    O que quero deixar claro é: ele não tinha como saber que você NÃO queria. O beijo foi completamente compreensível. "Não vou me estender muito sobre a polêmica do comportamento dos homens brasileiros para com as mulheres." Ainda bem que você não o fez, pois não há o que se estender aí. Desculpe, mas é ridículo querer relacionar um episódio desses (um beijo compreensível) com o "comportamento dos homens brasileiros para com as mulheres". O que me parece é que você ficou irritada menos pela atitude do Fernando em si do que pelo fato de que um cara que NÃO A INTERESSAVA ter agido dessa maneira. Se um cara atraente agisse EXATAMENTE da mesma maneira que o Fernando e lhe desse o beijo, você provavelmente não se irritaria.

    O comportamento dele no albergue é outra história, ALI ele de fato foi estúpido e sem noção. Ali ele merece ser alvo de toda a sua indignação. Mas na hora do beijo, não.

    Portanto, direcione a sua revolta para a atitude dele no albergue, não na balada.

    Atenciosamente,

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  5. Ju, esse Fernando eh UOH!

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