segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Mergulha, Angélique!




Primeiro, me senti a própria Camille: ela sabe que encontrou o homem da vida dela, mas fica questionando o coração o tempo todo. Depois, a Angélique me fez ver que, na verdade, eu preciso começar a fazer parte de um grupo tipo o Émotifs Anonymes; é tanto medo que os sentimentos às vezes ficam presos na garganta, sem entender que precisam (e podem) sair de mim.

Dos dois filmes, eu saí chorando. Depois de ver Adeus, Primeiro Amor (Mia Hansen-Love), confesso que eu senti uma angústia que nem sabia de onde vinha: as lágrimas que corriam no meu rosto eram de tristeza, mas eu não estava triste. Chorei porque entendi que a Camille (a linda Lola Créton) se forçou a dizer adeus a seu primeiro amor. E daí que quatro anos se passaram, que a menina amadureceu e que vive com o homem que a fez finalmente sentir-se mulher? E daí tudo isso se ela ainda fugiria com aquele moleque, mesmo depois de tanto tempo?

Hoje, quando terminou a sessão de Românticos Anônimos (Jean-Pierre Améris), eu também chorei, mas de felicidade (chorar de felicidade no cinema = Émotifs Anonymes urgente pra mim!). E depois de relacionar os dois filmes, que, tirando o fato de serem franceses, não têm nenhuma ligação à primeira vista, entendi que tinha ficado triste à toa.

Em Adeus, Primeiro Amor, Camille, ainda adolescente, é deixada pelo namorado que ama, e só depois de quatro anos longe dele consegue se apaixonar de novo. Ela se envolve com um homem mais velho, por quem sente um amor maduro, mas ainda precisa dar o último adeus ao menino que cortou seu coração. Românticos Anônimos é mais leve: conta com graça a história de Angélique (Isabelle Carré), uma mulher tímida que cria chocolates, mas acaba contratada como represente de vendas em uma fábrica (de chocolates!), tamanha dificuldade que tem em se expressar. Ela se envolve quase que por acaso com o novo chefe, que é ainda mais 'émotif'. Os dois têm medo de tudo - e é justamente a semelhança que assusta Angélique: como a união deles poderia um dia dar certo? Não são os opostos que se atraem? Há dois meses, eu percebi que não exatamente...

Fiquei triste à toa quando chorei no fim de Adeus, Primeiro Amor porque não entendi, de primeira, que a Camille não quer deixar o primeiro amor ir embora do coração dela por puro medo. Ou não seria mais fácil encarar um relacionamento com um moleque que ela (acha que) já conhece, e com quem sempre vai se sentir à vontade, com aquela leveza de adolescente, do que enfrentar o desconhecido em uma relação madura, que joga na cara dela o tempo todo que ela cresceu?

Foto 1: não precisa ter medo, Angélique,

Foto2: e não precisa chorar, Camille;

Foto 3: tá tudo bem.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

E precisa ser normal?


Nem eu entendi por que fui tão sincera numa conversa de mesa de bar, um negócio que poderia ter sido qualquer coisa de romântico, profundo, maior... Mas a infusão de cachaça naquela noite em Salvador me deixou à vontade, como nunca antes com um cara, pra compartilhar uma angústia tão minha.

Hoje, faxinando a casa de bonecas (onde vivo atualmente), encontrei no meio de um monte de cadernos e apostilas velhas um texto, escrito à mão, com uma parte de um diálogo entre Clementine e Joel, de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, que eu nem me lembrava mais de ter anotado - é da época em que ler roteiros de filmes famosos era hobby, já faz um tempo que não faço isso.

Relendo o trecho, eu percebi que a angústia que sinto há algum tempo e que compartilhei no bar do Pelourinho está ligada ao modo como eu - e também a Clementine - penso sobre a vida...

CLEMENTINE:
My goal, Joel, is to just let it flow through me, do you know what I mean? It's like... There's all these emotions and ideas and they come quick and they change and they leave and they come back in a different form and I think we're all taught we should be consistent. Y' know? You love someone - that's it. Forever. You choose to do something with your life - that's it, that's what you do. It's a sign of maturity to stick with that and see things through. And my feeling is that is how you die, because you stop listening to what is true, and what is true is constantly changing. You know?

Eu disse pra ele que acho que eu nunca vou ser de uma pessoa só.

sábado, 27 de novembro de 2010

É o que parece?




Sabe aquela cena de novela tosca em que a mulher abre uma porta misteriosa e pãm! Lá está o marido com outra? "Meu bem, não é o que parece!". O que é então? O que não parece?

Claro que a questão fica ainda mais nebulosa quando não há o flagrante.

Na quarta-feira, eu conheci um senhor de uns 75 anos, com a cara daquele vovô que tem muita história pra contar, fofo, que soube viver a vida, em uma pousada no alto de um morro do Guaraú, na Juréia, Peruíbe. E naquele momento ele era, para mim, um vovô de 75 anos com muita história pra contar, fofo, que soube viver a vida.

Quando nos conhecemos, eu estava prestes a desmaiar, já com os ouvidos tapados, a pressão bem baixa - nada que eu tenha comentado com o dono da pousada, que eu estava entrevistando, e que me apresentou ao velhinho.

Mal me cumprimentou, o vovô perguntou se eu já tinha terminado o que fazia lá, que precisava conversar comigo e que então me esperaria lá fora. Nos outros cinco minutos dentro da recepção da pousada não consegui pensar em nada além da conversa que teria com o velhinho, que se hospeda ali há anos para buscar inspiração e escrever. Ele é oftalmologista, fez o primeiro transplante de catarata do Brasil, phD em Toronto em não sei o que e autor de 14 livros.

Apressada, fui até a mesa em que o vovô me esperava. Ele pediu para que eu me sentasse ao seu lado, de frente para o mar. Me mostrou um de seus livros. Eu já sabia que ele era médium. Li na capa de um dos que estavam na mesa da recepção o subtítulo 'inspirado pelo espírito X'.

Em dois minutos, estava nova. De verdade. A falta de ar passou e eu não me sentia mais fraca. Apesar de ser um pouco tarde, eu ainda pretendia pegar a estrada de terra esburacada que leva à Barra do Una, a praia mais bonita da Juréia. Um casal de senhores donos de um boteco na frente da praia do Guaraú já havia me desanconselhado a fazer a viagem, mas eu não levei a sugestão de deixá-la para o dia seguinte a sério. Então, conheço Woyne Figner e ele me faz ficar sentada por um pouco mais de uma hora - e eu resolvo deixar Barra do Una pro dia seguinte.

Esse conjunto de acontecimentos me fez pensar três coisas: que Woyne havia me energizado e curado subitamente, que ele esticou a conversa de propósito para que escurecesse antes de eu colocar o pé na estrada - o que teria me feito escapar da morte, uhu! - e que não era por acaso que eu o havia conhecido ali - e, por isso, o levaria aonde ele quisesse ir comigo.

De repente, meu irmão me ligou. A conversa foi ordinária, ele perguntou se tudo estava bem. Depois, se tudo estava bem mesmo. Eu disse que sim, que o único problema era a solidão, mas que a isso eu me havia acostumado. Woyne estava do meu lado, ainda naquela mesa, de frente pro mar.

Desliguei. O velhinho então disse que a solidão não seria mais problema pra mim, que me acompanharia, a partir daquele momento, por onde eu fosse pelo Guia Quatro Rodas.

Primeira parada: jantar no restaurante mais caro da cidade. Ele já estava meu íntimo, colocava a mão sobre meu ombro como se eu fosse outra velhinha, sua mulher, talvez. Aquilo me incomodou, mas logo passou. Então, ele começou a falar repetidamente que me adorava, que a gente combinava muito, que eu era demais.

Estranho.

Já era tarde, e ele decidiu dormir na minha pousada em vez de subir o morro àquela hora para chegar à dele. Ok.

De manhã, ouço o velho batendo na minha janela, às 8h em ponto. "É aí que dormiu a repórter mais linda do Brasil?" Quis sair e dar uma voadora no peito dele, mas não achei muito conveniente.

Tomamos café juntos e eu fui ao trabalho, ele ficou escrevendo. Voltei depois de três horas; ele estava no mesmo lugar, agora com óculos escuros, escrevendo no caderninho que, me havia dito, usava para "redigir quando ouvia". Eu entrei na sala e senti uma energia absurda, foi como se algo tivesse tomado conta de mim. "Você é muito sensível, né?"

Medo?

Como eu estava diante de alguém com espiritalidade muito desenvolvida (e este assunto me interessa bastante), resolvi deixar a malice dele de lado e tentar aproveitar a amizade de um senhor de 75 anos, que certamente seria muito interessante. O que vivemos depois dava pra roteiro de um daqueles filmes fofos, em que uma garota legal (!) adota um velhinho solitário como amigo e eles ensinam muito um ao outro! Ai, que lindo!

Ele foi comigo até a praia do Caramborê, percorrendo uma estrada toda esburacada e enlameada - o carro quase atolou duas vezes -, fez uma trilha defícil, em mata fechada, até a praia da Desertinha (que ele teima em chamar de Escondidinha, para minha irritação profunda) e, no dia seguinte, pegou carona comigo, pela Régis, até São Paulo, onde quase morremos esmagados por vários caminhões, segundo as estatísticas dele.

Até agora não entendi por que ele quis vir para São Paulo comigo, já que tinha mais 15 dias de pousada pagos no Guaraú. Ele disse que tinha um casamento - mas por que não foi com o próprio carro? Eu cheguei a pensar que ele me protegia.

No último almoço, ele chamou o Figueiredo de mestre (no que eu perguntei, assustada, "o general????"). Depois, começou a falar em "revolução" quando se referia à ditadura (fato que eu demorei a entender... Por um instante, achei que ele se referisse à Revolução de 32). Falou na família como instituição e, já no carro, na volta, muito estressado pelo que as estatísticas dele apontavam como morte certa pra nós ("esse carro pequeno, você alta míope, chuva, noite e pista simples. Isso é alto risco, menina, isso é um absurdo, esse trabalho não é pra você, VOCÊ NÃO VAI MAIS FAZER ISSO"). Pois é, o velho começou a gritar na minha orelha, queria que eu parasse de qualquer maneira no primeiro posto, queria interromper a vigem, dormir em algum lugar.

(((Ok, fiz uma pequena omissão. No caminho para a Praia do Caramborê, o velho foi me contando as experiências sexuais dele, pelas quais, não vou negar, me interessei bastante. Falou de sexo como energia, como a coisa mais importante da vida. Falou de como aprendeu sobre o sexo tântrico com amigos indianos enquanto viveu no exterior. Falou em orgasmos de seis horas. Nesse momento, confesso que fiquei interessada/com medo (já que a qualquer comentário que ele fazia encostava a mão na minha perna - e falou sobre as "características férteis do meu corpo". Medo 2.)))

De volta à estrada:
Ele gritou: "Para aqui, menina!!! Tem um posto aqui". Eu, que como ele disse, sou míope alta, fiz que não vi a entrada. Segui. Ele continuou o sermão reacionário sobre a família e disse, do nada, elevando a voz (jutro por Deus!): E TE DIGO MAIS: É UM ABSURDO, UM A-B-S-U-R-D-O, QUE VOCÊ NÃO MORE COM SEUS PAIS. VOCÊ É SOLTEIRA, DEVERIA ESTAR NA CASA DELES. E, do nada, ele repetia: "Você vai ser minha amiga, né? Você é minha amiga do peito". Medo 3.

Não tinha o que fazer, eu seguia pela estrada da morte que nem diabo foge da cruz, mas aquele filho da puta não ia sumir do meu lado nem se eu fosse a 200 por hora.

E eu não dizia nada. Só pensava: "Deus, me ajuda a chegar em paz e me livre deste reacionário maluco que cruzou meu caminho". É, de repente, virei católica ultra-praticante.

Para distraí-lo e fazê-lo parar de gritar, eu fingi que tinha dúvidas sobre miopia - cheguei a perguntar o que aconteceria se eu tivesse filhos com alguém com oito graus de miopia, por exemplo. Ele disse que seria bem provável que eles tivessem pelo menos 15 graus. E me perguntou por quê. Eu disse que gostava de um menino que tinha oito graus de miopia. Então ele começou a falar que não é com o coração que tenho que escolher um marido, mas com a razão, já que ele possivelmente me abandonaria se eu não pensasse exclusivamente em mim. Eu comecei a discutir com o velho, falei das qualidades do tal menino. Ele disse: "fique esperta que mais cedo ou mais tarde ele cai fora", com essas palavras.

Chegamos, nos despedimos com um abraço que ele forçou e eu nunca fiquei tão aliviada, sã e salva em casa, com a sensação de que tudo não havia passado de sonho. E, para desmentir toda a teoria dele, cortei o cabelo, comprei um pó básico, arrumei todo o meu quarto... E o menino não apareceu. Fiquei com mais raiva ainda daquele velho maldito. Ele deve ter sentido as minhas vibrações (!!).

A partir daí, na minha cabeça, o menino não queria me atender porque já existia outra mulher (de novo). Até o lugar onde eles se conheceram eu já havia traçado. Mesmo depois de conversar com ele, de ouvir tudo, as palavras do velho não me saíam da cabeça. Do mesmo jeito que, quando conheci o Woyne, decidi que aquele médium seria o meu guia espiritual. E ponto final.

Mas, de repente, o espírito que me livraria de todos os males e me elevaria a alma virou um carma; e o menino, que estava dormindo quando tocou o celular, ainda não tinha outra. Ufa.

((Foto 1: Trilha que leva da Praia do Caramborê até a Desertinha, na Juréia, Peruíbe))

((Foto 2: Praia da Desertinha, depois de 45 minutos em mata fechada))

((Foto 3: Eu e o vovô-médium no início da trilha, na volta para a Praia do Caramborê, com a simpática Brisa, cadela de um caseiro que vive ali, e nos acompanhou))

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A fuga das magrelas


Ela fica, o tempo todo, ali na garagem,
encostada na vaga de algum carro desconhecido,
que a protege mesmo sem saber de quem é.

Eu fico, na maior parte do tempo, no meu quarto,
deitada na minha cama nova, queen size,
que mal chegou e já me fez uma refém qualquer.

Às vezes, a gente precisa se encontrar.
Eu tenho que fugir do conforto; ela se sente sufocar.

Durante o resgate, ela deixa o portão de ferro da garagem:
aí, já não sei mais quem queria sair correndo
(e quem estava enferrujada)
não me lembro quem foi abandonada
e a quem (quem) tinha que salvar.

Porque, quando estamos juntas, só corro

Corro, socorro, corro
Rec: recorro, corro, morro
Volto, mando, grito
Corre!
(ela tenta)
Corr, corrrrrrrrrr
Corre!
Corrrr, corrrrrrrrrrr
(a corrente arrebenta)
Paro, inalo, desvio
Ela volta,
Corre, socorre, recorre, escorre
Corr, corrr
Corre, corr, cor(ói).

Socorro
Só corre

Corre!

Ela obedece, sai correndo e eu seguro firme.
Eu obedeço, saio correndo e ela segura em mim

O vento bate forte, depois mais forte, passa por dentro e vai embora.
Pronto, tudo volta ao normal.

domingo, 18 de julho de 2010

Manual prático de sobrevivência afetiva


Eu achei que nunca mais fosse encontrar inspiração para postar de novo neste blog. Afinal, escrever sobre a minha própria vida quando os leitores são pessoas que convivem comigo limita a fantasia, não tem graça. E o lado ridículo da exposição pessoal fica ainda mais escancarado. Mas hoje, dia em que tudo foi pro beleléu, me permito postar aqui dicas para que outras pessoas evitem tal destino (ou para que se saiam bem em situações ambíguas que podem levar a ele). O post, aliás, pode até salvar o blog - antes que ele conheça o ostracismo e vá pra lá também.
(Só agora percebo que, se isso acontecer aqui, não haverá esperanças para mais nada.)

É recomendável ler cantarolando e depois refletir no banho... E de repente até aumentar a listinha e ajudar pessoas normais a entender gente esquisita!

Lá vai (as dicas estão separadas por situações):

Na cama: "Preciso te contar uma coisa. Aliás, faz tempo que preciso te falar"
Se alguém te disser isso, fuja. Finja enjoo e saia correndo até o banheiro. Depois, tente escapar pela janela.

No restaurante: "Sua felicidade me deprime"
Ao ouvir essa, chore. Chore mais. Pra ver que não adianta nada tentar mudar as coisas.

Por skype: "Não estou apaixonado por ela. Mas posso ficar"
Um ótimo exemplo de objetividade. Aprenda com a capacidade alheia.

Na balada: "Você está no seu auge. Aliás, está sempre no seu auge".
Desconfie das frases que podem ser ditas por qualquer um a qualquer um.

Por telefone: "Eu te amo, mas você merece muito mais"
Não é demais receber um conselho desses? Ainda mais quando vem da pessoa que te ama! Acredite: você merece coisa melhor (nossa, acho que já posso virar editora dos testes da nova revista Máxima! U-A-U!).

To be continued...

((Os passarinhos fofos são do pessoal da Revista Beleléu, que também está na revista Trip: revistabeleleu.wordpress.com))

domingo, 28 de março de 2010

Madadayo



Na escuridão da sala da Cinemateca, eu e o meu avô éramos os únicos a cochichar antes do início da sessão de Madadayo.

-Pronto, vô! Nem começou e já acabou, vamo embora!! - Foi a minha reação para um problema no início da projeção.

Só que, para cochichar com ele, se há de gritar...

-EEEEEEIN????

...E repetir até que ele entenda e ria da piada, mesmo que já não tenha mais graça (já não tinha mesmo).

De risinho com ele ali, esperando o filme começar, eu obviamente não imaginava que estava prestes a considerar, pela primeira vez, o fato de que meu avô um dia também vai estar pronto.

Madadayo, ao contrário do que eu pensava antes de ler a sinopse mais profunda que a wikipédia pode oferecer, não tem a ver com samurais. Não tem ação, castelo, nem nada que possa ser facilmente relacionado a um filme dirigido por Akira Kurosawa - mesmo por quem nunca viu nenhum (como eu) e aproveitou os cem anos que ele faria se estivesse vivo para conhecer seu trabalho. Por isso, a última coisa que eu esperava quando entrei na sala de cinema era sair de lá emocionada por conseguir, finalmente, enxergar alguma beleza na morte.

***

Eu, meu irmão e o vô estendemos o cafezinho e o funcionário da Cinemateca teve que vir até a nossa mesa para avisar que a sessão começaria em alguns instantes. Mesmo sabendo que meus pais já estavam lá dentro guardando três bons lugares, eu fiquei agitada e, sem perceber, apertei o passo. O Fernando me fitou com um olhar de reprovação e, com a mão, fez um gesto de "mais devagar". A cena antecipou para mim um sentimento que o filme tornaria claro, mas em que eu e a maioria das pessoas não gosta nem de pensar. Naquela hora, por uns cinco segundos, meus olhos encheram de lágrimas e, apesar dos 92 anos do vô, eu me lembrei que ele um dia também vai ter que responder "Madakai".

Claro que eu sei que todo mundo vai morrer, que temos que encarar a morte de um jeito natural e blá blá blá, mas isso já está programado nas nossas mentes: é mecânico pensar que a morte vai acontecer com todo mundo - o que não torna previsível nossa reação diante dela, seja qual for a circunstância, com uma pessoa querida ou com nós mesmos. Naquele momento, naquela fração de minuto em que eu comecei a andar mais devagar, segurei forte a mão dele e pensei que eu tinha sorte por tê-lo ali.

Passado esse momento, voltei à realidade: lá dentro, meus pais acenavam da penúltima fileira (são poucas nesta sala), com os nossos lugares reservados. Mas o vô, que confirmou, ao entrar no carro, que o óculos estava no bolso da calça, me confidenciou tê-lo esquecido. Por isso ficamos ali mesmo, na primeira fila. Depois o vô achou o óculos, mas já não dava mais, nossos lugares foram tomados. Tudo bem, ficamos ali juntos, de pescoço meio repuxado até o fim da sessão.

Para a minha surpresa, ele não desgrudou os olhos da tela, parecia o moleque de "Cinema Paradiso", fascinado. Quem já assisitiu qualquer coisa mais longa que meia hora comigo sabe que eu sou meio policial do sono e fico na vigia para me certificar de que não estou sozinha - e de que não vai ficar para mim a tarefa de resumir a história (ou desvendá-la sem nenhuma ajuda) mais tarde. Pois nas três vezes que dei uma olhadela de canto para o vô, os olhos dele nem piscavam, tão entretido que estava.

Tudo na história do professor de alemão que se aposentou para se dedicar à literatura se relaciona, de alguma maneira, com a vida do vô: desde a tolerância que aumentou com os anos (antes, o Professor Hyakken Uchida, personagem inspirado em história real, não suportava visitas. Depois, chega a pedir para que os amigos ex-alunos não o deixem) até uma grande perda (que no caso de Uchida é representada por um gato) e o desapego pela vida, no melhor sentido da expressão: os problemas deixam de ser obstáculo para serem encarados como só mais um detalhe imperfeito nos fatos que não gera insegurança ou angústia - o contrário do que acontece com os jovens, ansiosos até por não saber por que estamos ansiosos.

A calma com que o professor insiste em responder "Madadayo" (ainda não!) à provocação "Madakai" (pronto?) de seus antigos alunos é tão supreendente quanto a chegada do fim. Dormindo, ele volta à infância em sonho e descobre que está enfim "pronto", pronto para ser procurado pelos amiguinhos em um jogo de esconde-esconde, quando uma luz vermelha forte surge de maneira psicodélica no céu. As cores que se fundem com o vermelho transformam a paisagem de tal maneira que, de repente, a morte vira sinônimo de calma e felicidade (da sensação de dever cumprido).

***

Para sair, o vô desceu um lance de quatro degraus com bastante dificuldade, ele não enxergava onde terminava o chão para começar a escada.

-Daqui a pouco sou eu! - Ele disse daquele jeito brincalhão.
-Madadayo, vô. Madadayo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"É muito Brasil!"





Se nem eu aguento mais me ouvir falando isso, fico imaginando como meus amigos ainda não desistiram de mim.

Amanhã completo duas semanas de Brasil. Não lembro quando foi a primeira vez em que me saiu essa expressão, mas isso muito provavelmente aconteceu ainda no Aeroporto de Guarulhos, minutos depois de aterrisar.

Esperei uma hora por minhas malas que nunca apareciam na esteira tosca que emperrava e insistia em jogar o que passava por cima dela nos que a rodeavam. Por exemplo, uma mala retangular marrom sempre caía quando passava por mim, era batata. Mesmo assim, eu nunca estava preparada o suficiente para empurrá-la antes que isso acontecesse. Sempre pisava no pé de uns dois para impedir o acidente com a bagagem alheia. Depois do meu quinto empurrão, da queda de duas malas na parte interna da esteira, de ver um rapazinho pulando lá no meio para resgatá-las e da temporária paralisação do maquinário, como é que eu, já toda derretida, me abanando com o passaporte, não soltaria um "É muito Brasil!"?

No primeiro dia, tomei suco de açaí e água de coco com meus pais (o que, by the way, também foi bem Brasil) e depois resolvi acompanhar meu irmão até o trabalho dele, no prédio do Tribunal de Justiça, Centrão. Eu: branca, muito branca, de vestidinho florido, e máquina fotográfica na mão. No caminho, passamos por uma rua evangélica, com dezenas de lojas de roupas e músicas de Deus. Tinha um boteco na esquina. O sol de 35 graus me deu a sensação de estar na praia (uma daquelas farofeiras, bem Brasil também). Depois arrastei a Bel para uma passadinha pela Catedral da Sé e, pasmem, filmei um sanfoneiro que tocava no meio do povão. Devia ser evangélico também (do lado dele, alguém espalhava a brasileira palavra de Deus).

Em casa, mal desfiz as malas e enchi uma mochila com toalha, biquini e vestidinhos, a viagem de Carnaval para Ilha do Mel já estava toda programada. Dois dias antes de pegar a estrada, uma barreira cai na Régis e interdita todas as pistas. (Nossa, sério, nem é isso que eu ia dizer que era muito Brasil, mas não é MUITO??). Os jornais aconselharam adiar a viagem, mas nós, brasileiros, não desistimos nunca, não era isso? Um dia antes de ir, meu pai, preocupado, me ligou: "Ju, você viu como tá a Régis, né? Então, faz o seguinte, vai pela Castelo Branco, lembra dela, né? Das viagens para Angatuba?" E eu: "claro, claro". "Então, lembra daquele trecho do postinho policial no quilômetro tal? Então, não vira ali, vai reto e hasdgKDHkjdhkjHJKAhsjkAH (foi assim que o resto da explicação dele soou para mim)". No dia seguinte, minha mãe me liga: "Oi, Ju! Em que estrada vocês estão, o papai quer saber aqui". Eu, cara de pau: "Errr... Na Régis".

A teimosia nos custou doze horas de viagem até a Ilha e uns bons momentos esticando as perrrnas fora do carro no meio do trânsito parado, o que rendeu a foto MUITO BRASIL aí de cima.

No meio do feriado, a tentativa de sair do nosso cativeiro longínquo (um quarto tipo forno muito brasil com paredes de madeira e várias baratas voadoras dando uns rasantes) para chegar até a balada caiçaríssima foi bem engraçada. Estávamos em dez amigos que, cansados do forninho, decidiram que a tempestade de raios e trovões não nos impediria de dançar um forrózinho bem Brasil. No caminho, a tempestade piorou, os raios estavam refletindo na pontinha dos nossos narizes e chegamos a dar as mãos, com medo do mar que estava ali do lado, no esquema morre-um-morre-todo-mundo. Brasileiro, né?

Na balada, um cara que batia na minha cintura, por volta de uns 45, cheio de dreads no cabelo se aproxima com o seguinte papinho (e aquele suor bem Brasil, né?):

-Tell me (téu mi)!
-Quêêêê????????????????????????? (juro!!!)
-Tell me what you want (téu mi uati iu uanti)!

Acreditam??????? Que sotaque mais Brasil!!! Eu saí correndo, sem maiores reflexões, entendi que o meu vestidinho verde de listrinhas azuis não combinava com o modelito muito Brasil calça colada e blusinha com barriga de fora das demais meninas. Mas, menos de meia hora depois, eu passava no meio de uma galera de caiçaras quando soltei um grito:

-BEEEEEEEL, TO AQUIIII!!!!! - Tá, o meu grito também foi bem Brasil... O que talvez tenha sido determinante para a reação instantânea do negão bonitão do meu lado: "Nossa, pensei que você fosse da gringa".

-Eu, da gringa????? Depois de todo aquele samba super Brasil lá da pista????????????
Ele tentou corrigir, mas não adiantou. No dia seguinte eu comprei um colar de sementes coloridas que já sei que nunca vou usar na vida, mas me senti um pouco mais Brasil.

Uma outra série de coisas engraçadas e muito Brasil aconteceram depois disso, mas eu percebi que as pessoas à minha volta não estavam curtindo muito o jargão e ultimamente eu tenho me policiado antes de colocar o nome do Brasil em vão. Mas ontem eu não consegui. Fui no Tubaína, bar novo (na verdade nem tanto, mas pra mim tudo o que não tem mais de dois anos é novinho em folha!) ali na Haddock Lobo, na altura da minha ex-rua, a Matias Aires. No cardápio, além, claro, de várias tubaínas (pedi a arco-íris de uva, delicinha) tinha coxinha de feijão. Tem coisa mais Brasil?

Ontem à noite, a Bel estava no carro de uma amiga na Brigadeiro quando as duas foram abordadas por um louco armado e, ameaçadas, tiveram que sair do carro para ele entrar. Hoje, no telefone, quando ela me acordou para contar o susto, eu, toda sonada, pensei: nossa, que merda, é muito Brasil isso também.

FOTO 1: Depois de fotografar os sanfoneiros, queria uma foto muito Brasil de mim também

FOTO 2: O fusquinha nem precisava estar atrás da gente para essa foto ser tão Brasil. Afinal, em que outro país se tem o privilégio de fazer novas amizades no meio de uma estrada federal???

FOTO 3: Eu em um barquinho bem Brasil, um pouco antes da travessia Ilha do Mel - Pontal do Sul

Foto 4: Adoro o Brasil.