segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A fuga das magrelas


Ela fica, o tempo todo, ali na garagem,
encostada na vaga de algum carro desconhecido,
que a protege mesmo sem saber de quem é.

Eu fico, na maior parte do tempo, no meu quarto,
deitada na minha cama nova, queen size,
que mal chegou e já me fez uma refém qualquer.

Às vezes, a gente precisa se encontrar.
Eu tenho que fugir do conforto; ela se sente sufocar.

Durante o resgate, ela deixa o portão de ferro da garagem:
aí, já não sei mais quem queria sair correndo
(e quem estava enferrujada)
não me lembro quem foi abandonada
e a quem (quem) tinha que salvar.

Porque, quando estamos juntas, só corro

Corro, socorro, corro
Rec: recorro, corro, morro
Volto, mando, grito
Corre!
(ela tenta)
Corr, corrrrrrrrrr
Corre!
Corrrr, corrrrrrrrrrr
(a corrente arrebenta)
Paro, inalo, desvio
Ela volta,
Corre, socorre, recorre, escorre
Corr, corrr
Corre, corr, cor(ói).

Socorro
Só corre

Corre!

Ela obedece, sai correndo e eu seguro firme.
Eu obedeço, saio correndo e ela segura em mim

O vento bate forte, depois mais forte, passa por dentro e vai embora.
Pronto, tudo volta ao normal.

domingo, 18 de julho de 2010

Manual prático de sobrevivência afetiva


Eu achei que nunca mais fosse encontrar inspiração para postar de novo neste blog. Afinal, escrever sobre a minha própria vida quando os leitores são pessoas que convivem comigo limita a fantasia, não tem graça. E o lado ridículo da exposição pessoal fica ainda mais escancarado. Mas hoje, dia em que tudo foi pro beleléu, me permito postar aqui dicas para que outras pessoas evitem tal destino (ou para que se saiam bem em situações ambíguas que podem levar a ele). O post, aliás, pode até salvar o blog - antes que ele conheça o ostracismo e vá pra lá também.
(Só agora percebo que, se isso acontecer aqui, não haverá esperanças para mais nada.)

É recomendável ler cantarolando e depois refletir no banho... E de repente até aumentar a listinha e ajudar pessoas normais a entender gente esquisita!

Lá vai (as dicas estão separadas por situações):

Na cama: "Preciso te contar uma coisa. Aliás, faz tempo que preciso te falar"
Se alguém te disser isso, fuja. Finja enjoo e saia correndo até o banheiro. Depois, tente escapar pela janela.

No restaurante: "Sua felicidade me deprime"
Ao ouvir essa, chore. Chore mais. Pra ver que não adianta nada tentar mudar as coisas.

Por skype: "Não estou apaixonado por ela. Mas posso ficar"
Um ótimo exemplo de objetividade. Aprenda com a capacidade alheia.

Na balada: "Você está no seu auge. Aliás, está sempre no seu auge".
Desconfie das frases que podem ser ditas por qualquer um a qualquer um.

Por telefone: "Eu te amo, mas você merece muito mais"
Não é demais receber um conselho desses? Ainda mais quando vem da pessoa que te ama! Acredite: você merece coisa melhor (nossa, acho que já posso virar editora dos testes da nova revista Máxima! U-A-U!).

To be continued...

((Os passarinhos fofos são do pessoal da Revista Beleléu, que também está na revista Trip: revistabeleleu.wordpress.com))

domingo, 28 de março de 2010

Madadayo



Na escuridão da sala da Cinemateca, eu e o meu avô éramos os únicos a cochichar antes do início da sessão de Madadayo.

-Pronto, vô! Nem começou e já acabou, vamo embora!! - Foi a minha reação para um problema no início da projeção.

Só que, para cochichar com ele, se há de gritar...

-EEEEEEIN????

...E repetir até que ele entenda e ria da piada, mesmo que já não tenha mais graça (já não tinha mesmo).

De risinho com ele ali, esperando o filme começar, eu obviamente não imaginava que estava prestes a considerar, pela primeira vez, o fato de que meu avô um dia também vai estar pronto.

Madadayo, ao contrário do que eu pensava antes de ler a sinopse mais profunda que a wikipédia pode oferecer, não tem a ver com samurais. Não tem ação, castelo, nem nada que possa ser facilmente relacionado a um filme dirigido por Akira Kurosawa - mesmo por quem nunca viu nenhum (como eu) e aproveitou os cem anos que ele faria se estivesse vivo para conhecer seu trabalho. Por isso, a última coisa que eu esperava quando entrei na sala de cinema era sair de lá emocionada por conseguir, finalmente, enxergar alguma beleza na morte.

***

Eu, meu irmão e o vô estendemos o cafezinho e o funcionário da Cinemateca teve que vir até a nossa mesa para avisar que a sessão começaria em alguns instantes. Mesmo sabendo que meus pais já estavam lá dentro guardando três bons lugares, eu fiquei agitada e, sem perceber, apertei o passo. O Fernando me fitou com um olhar de reprovação e, com a mão, fez um gesto de "mais devagar". A cena antecipou para mim um sentimento que o filme tornaria claro, mas em que eu e a maioria das pessoas não gosta nem de pensar. Naquela hora, por uns cinco segundos, meus olhos encheram de lágrimas e, apesar dos 92 anos do vô, eu me lembrei que ele um dia também vai ter que responder "Madakai".

Claro que eu sei que todo mundo vai morrer, que temos que encarar a morte de um jeito natural e blá blá blá, mas isso já está programado nas nossas mentes: é mecânico pensar que a morte vai acontecer com todo mundo - o que não torna previsível nossa reação diante dela, seja qual for a circunstância, com uma pessoa querida ou com nós mesmos. Naquele momento, naquela fração de minuto em que eu comecei a andar mais devagar, segurei forte a mão dele e pensei que eu tinha sorte por tê-lo ali.

Passado esse momento, voltei à realidade: lá dentro, meus pais acenavam da penúltima fileira (são poucas nesta sala), com os nossos lugares reservados. Mas o vô, que confirmou, ao entrar no carro, que o óculos estava no bolso da calça, me confidenciou tê-lo esquecido. Por isso ficamos ali mesmo, na primeira fila. Depois o vô achou o óculos, mas já não dava mais, nossos lugares foram tomados. Tudo bem, ficamos ali juntos, de pescoço meio repuxado até o fim da sessão.

Para a minha surpresa, ele não desgrudou os olhos da tela, parecia o moleque de "Cinema Paradiso", fascinado. Quem já assisitiu qualquer coisa mais longa que meia hora comigo sabe que eu sou meio policial do sono e fico na vigia para me certificar de que não estou sozinha - e de que não vai ficar para mim a tarefa de resumir a história (ou desvendá-la sem nenhuma ajuda) mais tarde. Pois nas três vezes que dei uma olhadela de canto para o vô, os olhos dele nem piscavam, tão entretido que estava.

Tudo na história do professor de alemão que se aposentou para se dedicar à literatura se relaciona, de alguma maneira, com a vida do vô: desde a tolerância que aumentou com os anos (antes, o Professor Hyakken Uchida, personagem inspirado em história real, não suportava visitas. Depois, chega a pedir para que os amigos ex-alunos não o deixem) até uma grande perda (que no caso de Uchida é representada por um gato) e o desapego pela vida, no melhor sentido da expressão: os problemas deixam de ser obstáculo para serem encarados como só mais um detalhe imperfeito nos fatos que não gera insegurança ou angústia - o contrário do que acontece com os jovens, ansiosos até por não saber por que estamos ansiosos.

A calma com que o professor insiste em responder "Madadayo" (ainda não!) à provocação "Madakai" (pronto?) de seus antigos alunos é tão supreendente quanto a chegada do fim. Dormindo, ele volta à infância em sonho e descobre que está enfim "pronto", pronto para ser procurado pelos amiguinhos em um jogo de esconde-esconde, quando uma luz vermelha forte surge de maneira psicodélica no céu. As cores que se fundem com o vermelho transformam a paisagem de tal maneira que, de repente, a morte vira sinônimo de calma e felicidade (da sensação de dever cumprido).

***

Para sair, o vô desceu um lance de quatro degraus com bastante dificuldade, ele não enxergava onde terminava o chão para começar a escada.

-Daqui a pouco sou eu! - Ele disse daquele jeito brincalhão.
-Madadayo, vô. Madadayo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

"É muito Brasil!"





Se nem eu aguento mais me ouvir falando isso, fico imaginando como meus amigos ainda não desistiram de mim.

Amanhã completo duas semanas de Brasil. Não lembro quando foi a primeira vez em que me saiu essa expressão, mas isso muito provavelmente aconteceu ainda no Aeroporto de Guarulhos, minutos depois de aterrisar.

Esperei uma hora por minhas malas que nunca apareciam na esteira tosca que emperrava e insistia em jogar o que passava por cima dela nos que a rodeavam. Por exemplo, uma mala retangular marrom sempre caía quando passava por mim, era batata. Mesmo assim, eu nunca estava preparada o suficiente para empurrá-la antes que isso acontecesse. Sempre pisava no pé de uns dois para impedir o acidente com a bagagem alheia. Depois do meu quinto empurrão, da queda de duas malas na parte interna da esteira, de ver um rapazinho pulando lá no meio para resgatá-las e da temporária paralisação do maquinário, como é que eu, já toda derretida, me abanando com o passaporte, não soltaria um "É muito Brasil!"?

No primeiro dia, tomei suco de açaí e água de coco com meus pais (o que, by the way, também foi bem Brasil) e depois resolvi acompanhar meu irmão até o trabalho dele, no prédio do Tribunal de Justiça, Centrão. Eu: branca, muito branca, de vestidinho florido, e máquina fotográfica na mão. No caminho, passamos por uma rua evangélica, com dezenas de lojas de roupas e músicas de Deus. Tinha um boteco na esquina. O sol de 35 graus me deu a sensação de estar na praia (uma daquelas farofeiras, bem Brasil também). Depois arrastei a Bel para uma passadinha pela Catedral da Sé e, pasmem, filmei um sanfoneiro que tocava no meio do povão. Devia ser evangélico também (do lado dele, alguém espalhava a brasileira palavra de Deus).

Em casa, mal desfiz as malas e enchi uma mochila com toalha, biquini e vestidinhos, a viagem de Carnaval para Ilha do Mel já estava toda programada. Dois dias antes de pegar a estrada, uma barreira cai na Régis e interdita todas as pistas. (Nossa, sério, nem é isso que eu ia dizer que era muito Brasil, mas não é MUITO??). Os jornais aconselharam adiar a viagem, mas nós, brasileiros, não desistimos nunca, não era isso? Um dia antes de ir, meu pai, preocupado, me ligou: "Ju, você viu como tá a Régis, né? Então, faz o seguinte, vai pela Castelo Branco, lembra dela, né? Das viagens para Angatuba?" E eu: "claro, claro". "Então, lembra daquele trecho do postinho policial no quilômetro tal? Então, não vira ali, vai reto e hasdgKDHkjdhkjHJKAhsjkAH (foi assim que o resto da explicação dele soou para mim)". No dia seguinte, minha mãe me liga: "Oi, Ju! Em que estrada vocês estão, o papai quer saber aqui". Eu, cara de pau: "Errr... Na Régis".

A teimosia nos custou doze horas de viagem até a Ilha e uns bons momentos esticando as perrrnas fora do carro no meio do trânsito parado, o que rendeu a foto MUITO BRASIL aí de cima.

No meio do feriado, a tentativa de sair do nosso cativeiro longínquo (um quarto tipo forno muito brasil com paredes de madeira e várias baratas voadoras dando uns rasantes) para chegar até a balada caiçaríssima foi bem engraçada. Estávamos em dez amigos que, cansados do forninho, decidiram que a tempestade de raios e trovões não nos impediria de dançar um forrózinho bem Brasil. No caminho, a tempestade piorou, os raios estavam refletindo na pontinha dos nossos narizes e chegamos a dar as mãos, com medo do mar que estava ali do lado, no esquema morre-um-morre-todo-mundo. Brasileiro, né?

Na balada, um cara que batia na minha cintura, por volta de uns 45, cheio de dreads no cabelo se aproxima com o seguinte papinho (e aquele suor bem Brasil, né?):

-Tell me (téu mi)!
-Quêêêê????????????????????????? (juro!!!)
-Tell me what you want (téu mi uati iu uanti)!

Acreditam??????? Que sotaque mais Brasil!!! Eu saí correndo, sem maiores reflexões, entendi que o meu vestidinho verde de listrinhas azuis não combinava com o modelito muito Brasil calça colada e blusinha com barriga de fora das demais meninas. Mas, menos de meia hora depois, eu passava no meio de uma galera de caiçaras quando soltei um grito:

-BEEEEEEEL, TO AQUIIII!!!!! - Tá, o meu grito também foi bem Brasil... O que talvez tenha sido determinante para a reação instantânea do negão bonitão do meu lado: "Nossa, pensei que você fosse da gringa".

-Eu, da gringa????? Depois de todo aquele samba super Brasil lá da pista????????????
Ele tentou corrigir, mas não adiantou. No dia seguinte eu comprei um colar de sementes coloridas que já sei que nunca vou usar na vida, mas me senti um pouco mais Brasil.

Uma outra série de coisas engraçadas e muito Brasil aconteceram depois disso, mas eu percebi que as pessoas à minha volta não estavam curtindo muito o jargão e ultimamente eu tenho me policiado antes de colocar o nome do Brasil em vão. Mas ontem eu não consegui. Fui no Tubaína, bar novo (na verdade nem tanto, mas pra mim tudo o que não tem mais de dois anos é novinho em folha!) ali na Haddock Lobo, na altura da minha ex-rua, a Matias Aires. No cardápio, além, claro, de várias tubaínas (pedi a arco-íris de uva, delicinha) tinha coxinha de feijão. Tem coisa mais Brasil?

Ontem à noite, a Bel estava no carro de uma amiga na Brigadeiro quando as duas foram abordadas por um louco armado e, ameaçadas, tiveram que sair do carro para ele entrar. Hoje, no telefone, quando ela me acordou para contar o susto, eu, toda sonada, pensei: nossa, que merda, é muito Brasil isso também.

FOTO 1: Depois de fotografar os sanfoneiros, queria uma foto muito Brasil de mim também

FOTO 2: O fusquinha nem precisava estar atrás da gente para essa foto ser tão Brasil. Afinal, em que outro país se tem o privilégio de fazer novas amizades no meio de uma estrada federal???

FOTO 3: Eu em um barquinho bem Brasil, um pouco antes da travessia Ilha do Mel - Pontal do Sul

Foto 4: Adoro o Brasil.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Vida longa ao Beleléu!






Desde que o meu irmão me escreveu no dia 7 de janeiro, meu terceiro dia de viagem pela Europa central e aniversário de 26 anos dele, eu me pego tentando pensar numa maneira de evitar que meu projeto de blog vá pro beleléu.

Quando publiquei o que teoricamente foi o meu último post sobre a minha aventura solitária - ainda falta escrever sobre o tenso dia que passei em Auschwitz -, pensadamente escrevi no rodapé: FIM DA MINHA VIAGEM, para ver se causaria reações (e se alguém estava lendo isso aqui).

Um ou dois dias depois, li o comentário da Isa, que me fez pensar ainda mais sobre seguir com o Beleléu. Ela sempre foi uma das pessoas que mais me incentivou (para tudo) e, dessa vez, mesmo meio que sem querer, foi de novo determinante (como foi também quando eu estava insegura sobre deixar ou não o Brasil).

Em um dos posts, a Ritinha, com quem eu tive a agradável surpresa de (re)encontrar no meio dos comentários desse blog, escreveu que tinha saudades dessa vida de viajante. Por mais simples que possa parecer, o que ela publicou aqui me fez pensar por um tempão sobre um monte de coisas. Afinal, daqui a (muito) pouco, eu também já não serei mais viajante, certo? Não, errado.

E foi para mostrar para ela (e pra mim mesma) que a gente pode ter "essa vida de viajante" mesmo em casa, que eu disse que gostaria de escrever um post sobre isso.

Depois de um ano e nove meses longe do que eu acreditava ser a "realidade", percebi que enquanto estive fora me senti muito mais livre para viver, em todos os sentidos, do que em meu próprio país. Na Espanha, todas as roupas daquelas catalanas me pareciam super esquisitas no início, os cabelos então! E eu me deslumbrava com o jeito que elas desfilavam os modelitos: nem aí para ninguém, sem esperar a aprovação ou condenação de desconhecidos. Parecia que ninguém tinha medo de mudar, de ser o que bem entendesse. Reconheço que pode ser que não seja bem assim para quem nasceu lá, que essa é a visão de quem tá de fora. Mas é o jeito que eu gosto de interpretar isso e, portanto, a maneira como eu posso escolher viver. Já em Dublin, não vou negar que achei o máximo ser considerada exótica e ser elogiada pelos meus belos olhos (gente!!! my eyes are SO ordinary!!!!). Lembro que meus amigos irlandeses me perguntavam como a brasileira pode ser tão assim, tão assado, tão mil vezes melhor que a irlandesa. De novo, tudo pode mesmo não passar de clichê, mas por que não incorporá-lo if it feels good? De repente, no finzinho dessa temporada, percebi que eu cometia um grande erro ao tratar o meu passado como "a realidade" e de viver pequenas crises pensando que teria que voltar a ela. Estava errada porque a minha vida continua sendo real em qualquer continente. Eu só não conseguia me permitir relaxar totalmente porque a vida que eu levava (e até eu mesma como mulher) estava saindo muito melhor do que a que eu sempre levei (e a que eu sempre fui). E acho até surpreendente esse meu sentimento de ansiedade (do tipo friozinho na barriga bom) por voltar: agora eu aprendi como eu quero (e posso) levar a minha própria vida, e que ela é só minha. Acho de verdade que posso conseguir me sentir turista na minha própria cidade e viver outras mil loucuras e desafios. Doesn't it sound good?

Mas eu sei que a Ritinha devia estar pensando na Torre Eiffel, no D’Orsay, no Arco do Triunfo, nos vinhos franceses e etc. Isso tudo vai sempre estar lá, isso é o melhor.

***

Por isso eu decidi que o Beleléu não vai morrer. Aliás, essa ideia nasceu em Chamonix, na França, há dois meses, quando o Romain (nosso amigo francês que nos levou para esquiar lá e que fala português fluentemente) me perguntou o que significava beleléu, depois de eu ter mencionado a expressão "foi pro beleléu", em desuso há umas duas décadas. Eu tentei explicar, a silvia tentou ajudar, ele fez que entendeu, mas a gente sabia que na real não existe uma definição palpável para isso.

Alguns instantes de reflexão depois, eu visualizei o beleléu como um lugar distante e desconhecido, exatamente como me pareciam os países que eu estava prestes a explorar sozinha e, por isso, gostei da ideia de dizer que estava no beleléu. E é também por isso que o blog não vai acabar aqui - decidi que quero continuar vivendo nesse lugar.

Já mencionei o email do meu irmão e disse que foi a partir dele que comecei a pensar num novo projeto.

Publico o teor dele aqui:

Eu escrevi tudo isso pensando em colocar como comentário no seu blog, como eu gostaria, mas talvez não seja o caso.

Só hoje fui ver o seu blog. O curioso é que antes os diários eram secretos e invariavelmente escritos por meninas. Um seu tinha até cadeado! Hoje tudo é escancarado por todos para meia dúzia de "seguidores", termo que mais lembra discípulos de alguma divindade ou do chapolin: sigam-me os bons!
Então, é uma pena que você tenha criado este blog só em 2010, 19 meses após sua fuga do terceiro mundo e a poucas semanas de voltar para ele. Deixamos de saber de várias aventuras cotidianas suas, quase quedas do trem e quase perdas de voos (vai se acostumando com o desacordo ortográfico).
Deve ser foda mesmo encarar sozinha o invern
o alemão, quando nem os turistas parece que aparecem. Só uns brasileiros perdidos e com inglês ruim que você insiste em ignorar. Espero que escrevendo seus relatos e lendo esses comentários você se sinta menos nômade e mais integrada às pessoas que vão te receber aqui de volta. Em relação ao medo da reinserção social, acho que a última coisa que vai acontecer com você é ficar como a velha da penne pasta, já que você tem raiva de qualquer rotina. Além disso, as trocentas pessoas que foram se despedir de você e da Silva no Copan não iam te permitir uma vida tão monótona.
Eu reconheço que o meu mal é a inveja, nem tanto da sua época de trabalhos braçais e mal pagos, mas desses tempos à toa pela Europa. Espero um dia conhecer metade dos lugares que você vai ter visto até o fim do seu exílio.
A vantagem do chapéu e das botas é que você pode ir trajada de russa em alguma festa a fantasia ou virar atração turística no shopping de Campos do Jordão.
Hoje vou comemorar um ano a menos de vida num bar da modinha que abriu perto da sua ex-casa. Chama Tubaína. Como no ano passado, você não imagina quanta falta vai fazer.
Beijos,
Fernando


Com um irmão assim, como não voltar confiante???

***

Não que mais alguém queira saber ou realmente se importe com as minhas aventuras cotidianas, mas eu gosto de escrever. Não tá aí um bom motivo para continuar? Então eu decidi publicar, em cada um dos meus útlimos dias de Europa, os meus top funny moments aqui. Porque tenho certeza que são entertaining enough e porque eu quero guardá-los na memória para sempre (e como a minha é fraca, talvez o Beleléu me ajude com isso mais pra frente).

Vai começar depois de Auschwitz. Aguardem.

((FOTO: O tempo entre pouso e desembarque do meu voo Budapeste-Dublin, pela Ryanair, foi de, pelo menos, meia hora. O suficiente para criar o Julinho. Na tira "Adaptação", ele, que não faz parte do universo em três dimensões, como um bom boneco de palitinho, se vê diante de uma cadeira com profundidade. Acha a novidade interessante e chega até a experimentar sentar-se nela. Mas quando se depara com a antiga cadeira de palitinhos fica mais confortável (o conforto físico não está em jogo) e decide: é ali que prefere ficar))

((Foto 2: Eu voltava do meu exame do IELTS, que fiz algumas horas depois de desembarcar em Dublin, quando vi o que considero a pior propaganda de todos os tempos. Afinal, Gaudi tem a sílaba tônica no i!! Que absurdo!))

((Foto 3: Depois da prova, tentei ir pra "festa de fim de ano" da firrrrrma, mas me atrasei (estava ocupada dormindo). Ainda deu tempo de ir na house party do Alex! Na foto, eu e ana, dona dos sapatos da foto abaixo - não parece que estou bronzeada perto dela??!!))

((Foto 4: As irlandesas só usam saltos desse tamanho pra cima!!!))

((Foto 5: No dia seguinte, o Alastair me levou para fábrica da Guiness, onde eu ainda nunca tinha ido (sério!). O passeio não é dos mais legais, na verdade você não conhece o lugar onde a guiness é mesmo feita (como a fábrica do whisky bushmills na Irlanda do Norte), só um museu tosco. Mas se for com a companhia certa, pode ser um dos mais legais que você já fez na vida.))

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sem classe






Pensei em deixar Budapeste para outro post.

Não que a viagem não tenha sido demais. Mas a volta a Dublin foi tão surpreendente que, por incrível que possa parecer, ofuscou um pouco a minha última parada. Talvez porque a minha vontade de rever as meninas e a cidadezinha que me recebeu tão bem foi tanta que eu quase não consegui me concentrar na leitura do meu super guia da Europa central (ou dos mapas da cidade que eu teimava em perder).

Comecei então a escrever o que seria um relato breve sobre Buda e, claro, acabei me alongando. A volta a Dublin fica para amanhã.

***

Depois das duas horas dormindo no sofá do albergue de Viena (e do grito "it's already passed 5 minutes", do recepcionista fofo que me ajudou a acordar) cheguei às 6h45 na plataforma 11 de Westbahnhof, o que foi para mim quase um recorde de pontualidade (o trem saía às 6h50)! E, apesar de curtas, eu ainda contava com as três horas de viagem até Budapeste para completar a minha média de cinco horas de sono diárias.

"Can I take any seat?", foi a primeira coisa que eu perguntei para o primeiro funcionário do trem que eu vi, por causa do meu trauma anterior de me meter em vagões com destinos obscuros e porque eu queria logo largar todas as minhas tralhas no primeiro lugar que eu visse - já não aguentava mais segurar uma bolsa de mão lotada e duas sacolas plásticas cheias de lixo que eu não tinha nem coragem de jogar fora, além do mochilão.

Ele disse que sim.

Entrei no primeiro vagão que vi pela frente e adorei as poltronas de couro super confortáveis dispostas em pares. "Os trens europeus são mesmo uma caixinha de surpresa", pensei, inocente. Espaçosa (o trem estava vazio!), já joguei tudo em duas de uma vez. Passei dez minutos arrumando as malas, colocando tudo no lugar, sentando, levantando, me ajeitando para encontrar uma posição em que poderia dormir pelas próximas horas. De repente, uma aeromoça (para trens) surgiu do nada e distribuiu um suquinho e um pacote de salgadinho para cada passageiro.

Tudo bem, não posso negar que nesse ponto já desconfiava que eu não pertecia àquele vagão, especialmente depois de prestar atenção aos senhores meus vizinhos de viagem com seus respectivos ternos e notebooks, nada que ver com mochilões e sacolas plásticas cheias de lixo. Por isso, quando recebi o suquinho (que não hesitei em beber de uma vez só), achei que aquela pudesse ser a classe errada. Mas lembrei do que o funcionário que falou ("yes, any seat") e dei uma de armless john*. Fiquei lá mesmo.

De longe, vi o mesmo funcionário anteriormente abordado recolhendo os bilhetes dos passageiros. Eu, já confortável entre toda aquela gente trabalhando incansavelmente (até pensei em abrir o meu humilde netbook para me sentir ainda mais 'in'), mostrei o meu ticket sem medo.

"This is not your class."

Quê???????

Meu mundo caiu. Depois de tudo! De me familiarizar com o vagão e meus vizinhos passageiros, depois de tomar o suquinho e tudo mais, eu teria que me mudar?????? Meu deus, quanta humilhação!!!

Depois de uns cinco minutos arrumando tudo de novo, recolhendo todas os chocolates, livros e a pantufa que já estavam do lado de fora da mala, finalmente fui embora, me sentindo o Chaves sendo expulso da vila (sabe, com a trouxinha no ombro??)

Tudo bem, dei até tchauzinho para um dos meus então-ex-companheiros de viagem e segui pelo corredor em direção às classes mais baixas.

No vagão seguinte, as poltronas estreitas dispostas de três em três me fizeram crer que aquele sim era o meu lugar. Então, ainda com o salgadinho da primeira classe na mão (isso é o que eu chamaria de roubatinha involuntária), de novo espalhei minhas malas por todos os lados, peguei o que seria necessário para o meu sono e, enfim, comecei a me ajeitar para dormir (apesar dos raios do sol nascente que começavam a refletir no chão coberto de neve e ofuscar a minha visão).

De novo, o inspetor.

"Sorry, but this is still not your place", ele me disse, num tom envergonhado.

Eu comecei a rir e disse a única coisa que caberia para aquele momento: "REALLY???" Ele também deu uma risadinha - e eu comecei a ficar irritada de verdade, afinal de contas, não estava escrito em lugar nenhum nos vagões que classe era aquela e, anyway, ele não tinha me dito lá na plataforma que eu poderia sentar em "any seat"?? Puta que o pariu.

Fingindo não estar irritada e sem nem tempo de pensar no drama da humilhação e tudo o mais, já automaticamente coloquei tudo pra dentro da mala de qualquer jeito e andei, andei, andei até chegar em um vagão com uns paquis, mulheres com panos variados enrolados na cabeça e crianças chorando. Afinal, encontrei o meu lugar!

Toda essa brincadeira levou um pouco mais de uma hora e, no fim das contas, a contabilidade ficou em meia hora de sono.

Tudo bem, eu vou pra Budapesteeeee!!!! (eu tentava afirmar isso pra mim mesma, para tentar esquecer que na verdade estava exausta e daria qualquer coisa por uma boa noite - ou dia - de sono em QUALQUER LUGAR)

Cheguei na estação principal de Budapeste enjoada e perdida, muito perdida. De novo, não tinha reserva em nenhum albergue. Ali mesmo já começaram a ficar claras algumas diferenças entre Budapeste e as outras cidades visitadas (Berlim, Viena, Praga e até Cracóvia). Vários senhores e senhoras um pouco desdentados abordando TODOS os passageiros que chegavam para que trocássemos os nossos euros nos "escritórios" deles. Claro que achei tudo aquilo meio esquisito e fui direto para o ponto de informações turísticas, onde as coisas não foram menos estranhas, apesar da dica de uma casa de câmbio com boa cotação para trocar o que sobrou do meu orçamento para essa viagem.

Eu perguntei para a mulher como eu fazia para chegar em um albergue indicado no meu super guia de Europa central e ela disse: "Olha, não é longe, mas se você quiser ficar no Marco Polo, onde a noite custa dez euros, eu mesma posso fazer uma reseva para você e uma van vem te buscar aqui na porta". Se eu não estivesse tão cansada, talvez desconfiaria de alguma mutreta.

Sem pensar duas vezes, respondi: "that's great! Deal". Em uma fração de segundos, o motorista da tal van chegou e, de repente, me vi andando atrás dele, acompanhada de um alemão mal-encarado.

No caminho, silêncio total. O limite imposto pelo idioma me fez sentir confortável com toda aquela mudez (geralmente quando eu entro em um táxi ou qualquer coisa assim, começo a falar sem parar, mesmo quando não estou tão afim).

Tudo deu certo e mais uma vez resisti, num esforço absurdo, à minha caminha já preparada naquele quarto fedido do albergue - afinal só teria aquele e metade do dia seguinte para Budapeste.

Na recepção, perguntei à mocinha qual seria uma boa maneira de conhecer a cidade em um dia. Ela me indicou o famigerado ônibus hop on/hop off e eu, que sempre fui totalmente contra esse específico tipo de transporte turístico, achei que aquele talvez fosse um bom momento para me livrar do velho preconceito. Passei a mentira da estudante que perdeu a carteirinha e consegui disconto no bilhete (eu até fiz uma carteirinha de estudante trambiqueira na pizza hut antes de viajar, ainda no Brasil, mas me roubaram em Londres e acho que ela já nem teria mais validade mesmo).

Sem pressa, fui almoçar num pequenino e aconchegante restaurante húngaro barato e, depois de um PF enorme com uma montanha de arroz e peixe com molho de queijo (estranho, né? Achei que só eu colocava queijo no salmão), saí andando pra qualquer lado. Dei de cara com a Sinagoga, de longe a mais linda que eu já vi na minha vida - e olha que eu não entrei (àquela altura 2.500 florins já faziam grande diferença pra mim).

De novo, saí andando em qualquer direção e cheguei no Mercadão da cidade (que eu nem sabia que existia). O passeio foi muito legal, adoro barracas coloridas de frutas e peixes fedorentos. Lá, comprei uma rolha decorada com uma bonequinha húngara que vinha com uma pimenta para afastar o mau olhado, pra Silvia, e um par de bananas pra mim.

Atravessei o Danúbio pela ponte Szabadság e cheguei em Buda (estava no lado Peste). Antes mesmo de sair da ponte, comecei a fotografar um prédio lindo na esquina. Turista mais perdida do universo, entrei lá e perguntei o que era aquilo (estava escrito hotel e spa do lado de fora). "Esse é o spa mais antigo da Europa", me disse uma fonte não tão confiável, um senhor que queria me vender cartões postais com fotos de piscinas cobertas de alto nível. Depois de uns dois minutos eu me toquei que eu estava Géllert Baths, um dos dois lugares famosos onde se pode tomar banhos em águas termais - e onde eu ironicamente estava mais ansiosa para chegar.

No meio de tanta empolgação ("Ahhhh, que delícia! Vou encerrar minha viagem com chave de ouro, relaxada num banho turco... Ahhhh, que vidão!!") eu lembrei de algo que na hora me pareceu só um detalhe: eu não tinha biquini. Como ia pensar em trazer um biquini para uma viagem de temperatura negativas??? Esqueci até o meu cartão de crédito!!! Por favor!

Lá dentro, os biquinis custavam 40 euros pra cima (o preço ficava ainda mais assustador em florins) e todos eram simplesmente UÓ, nem a minha vó usaria algo tão enorme. Afe Maria. Pensei em nadar com as minhas roupas de baixo, mas não achei conveniente.

Saí triste, mas otimista. Teria um dia inteiro de andanças para achar um biquini que me servisse. Atravessei a rua e dei de frente para uma caverna onde, um pouco receosa, entrei. Nos fundos, uma igrejinha. Achei fenomenal. Rezei, agradeci, paguei os pecados e saí.

Segui no sentido norte, peguei um funicular e subi até Castle Hill. Fiquei louca com aquela arquitetura e fiquei um tempão na gótica Mathias Church. Depois continuei passeando por ali, mas já era noite eu não tinha noção de como fazer para ir embora. De repente, vi um grupo de japoneses (aqueles que sempr andam em grupos enormes e que eu nunca tinha notado antes de o Rodrigo me falar) entrando no ônibus 16. Achei que aquele também pudesse servir pra mim e entrei (sem bilhete, porque não tinha noção de onde comprava). Cheguei sã e salva ao albergue e acho que não levei nem um minutos para pegar no sono.

No dia seguinte, acordei cedo para uma outra voltinha a pé, dessa vez por Peste: Museu Nacional, basílica de Szt. István, Chain Bridge, a mais antiga da cidade, e Parlamento, nessa ordem. Ainda deu tempo pra comprar uma bota linda, marrom e sem salto (já nem estava mais pensando no biquini ou nas águas termais, ficou para a próxima), pegar o dinheiro gasto para a entrada no busão hop on/hop off de volta (não foi nada pessoal, mas mesmo cansada achei que sair andando sem rumo seria mais legal), pegar minhas malas e uma van até o aeroporto para, finalmente, voltar para Dublin.

*Gíria de origem irlandesa datada do século 18, rapidamente aportuguesada para o clássico "joão sem braço" pelos brasileiros que, já naquela época, iam fazer dinheiro vendendo Guiness nos pubs de Dublin. A expressão tornou-se muito popular no Brasil dada a quantidade de brasileiros que viveram/vivem dando uma de migué na Irlanda.

((FOTO 1: A Assembleia Nacional da Hungria se reune no prédio mais antigo da Hungria. O Országház é o segundo maior parlamento da Europa))

((FOTO 2: A St. Stephen Basilica é tão alta quanto o Parlamento e a construção neoclássica levou 54 anos para ser finalizada - o colapso da cúpula, em 1868, atrasou os trabalhos))

((FOTO 3: A Széchenyi (Chain Bridge) é a ponte mais velha sobre o Danúbio. E certamente a mais bonita. A foto noturna foi tirada de cima de Castle Hill))

((FOTO 4: A caverna que virou igrejinha de pedra))

((FOTO 5: Segundo a Wikipedia, essa é a maior e mais monumental sinagoga da Europa. A fachada tem uma coisa meio árabe porque foi construída em estilo neomourisco (que imitava arte islâmica). Só não entrei pra ter que rolar a "próxima vez". Quem topa voltar comigo?))

FIM DA MINHA VIAGEM.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sissi = Romy = ? / Mulher = homem = ?




((Assim que encontrar uma boa rede de wifi conserto os acentos desse texto))

Ouvi falar pela primeira vez da atriz Romy Schneider quando visitei o Museu do Cinema, no Sony Center, em Berlim. Fiquei hipnotizada pela beleza dela e analisei cartaz por cartaz, li texto por texto, ate entrevista em progama do Jo alemao eu fiquei la ouvindo. Essa foi tambem a primeira vez que escutei sobre a Sissi, imperatriz da Austria e Rainha hungara que Romy interpretou (aparentemente, eu ainda nao vi) tao bem no cinema que parece ela mesma ter virado um pouco Sisi tambem.

***

No meu ultimo dia em Berlim, em um bar com o Thomas, ele viu o folheto do Museu do Cinema com a foto da atriz no meu caderno e eu comentei que a historia dela me chamou a atencao. "Quantos anos ela deve ter hoje?", perguntei.

"Nossa, acho que faz uns 40 que ela morreu!!!"

"haaa!!! Nao acreditoooo!!!!!!" Eu respondi, chocada.

Muitas gargalhadas depois ("eu nunca nem tinha ouvido falado dela, c'mon"), ele explicou que achava que ela tinha morrido de overdose e eu fiquei surpresa de verdade.

Olha so que coisa: a Sissi era cosiderada a mulher mais bonita da Hungria do seculo 19. A Romy, muito mais bonita que ela, tambem deve ter sido vista assim na Alemanha dos anos 50. A Sissi se dizia incompreendida, nao conseguia viver sob a etiqueta real dos Habsburgo. A Romy teve que se esforcar muito para se desvencilhar da Sissi, trocando a Alemanha pela Franca - e causando aparente indignacao no publico alemao. Desde o suicidio do filho, a Sissi ja estava morrendo aos poucos, em depressao grave, ate que foi assassinada no meio da rua por um anarquista. O filho da Romy morreu com 14 anos e depois disso ela se afundou nas drogas, o que a levou `a morte por ataque cardiaco. A depressao de nenhuma das duas teve a ver exclusivamente com a morte do filho.

Achei louca a semelhanca entre elas e estava bastante curiosa para conhecer um pouco a rotina da Sissi real no Hofburg (Palacio de Inverno dos Habsburgo) - e tentar entender por que ela foi tao incompreendida assim.

Na verdade, acho que ela era tao bonita que ficou obcecada com a propria beleza ao envelhecer. Todos os dias, levava tres horas para se arrumar. Duas so com o cabelo (que alguem fazia para ela, claro). Sobrava tempo demais para pensar na vida! E tanta reflexao a fazia crer que estava presa em si mesma, naquela vidinha de mentiras, sem volta (por isso gostava tanto de viajar, era o seu unico escapismo). E, de alguma maneira, acho que isso foi um pouco o que levou a Romy a se matar tambem: pensar que a vida ja nao tinha mais volta.

Enfim, adorei a visita ao palacio e achei interessante a sala das pratarias, apesar do tedio de ver aquelas infinitas colecoes de porcelanas e pratas que a realeza usava para comer.

De la, fui dar uma voltinha no Museum Quarter. E o maximo aquele monte de exposicoes juntas, uma do lado da outra, num lugar so - no que e considerada a oitava maior area cultural do mundo, com predios modernos e barrocos juntos. O complexo e gigante e muito bonito. Fica de frente para o Hofburg.

Parece que o Leopold Museum e o mais famosinho, mas estava fechado ontem. Ainda bem, porque acabei indo ver a exposicao 'Gender Check', no Mumok (Museum Moderner Kunst Ludwig Wien).

Primeiro eu achei que fosse uma coisa modernosa sobre preconceitos relacionados `a homossexualidade e estava com um pouco de preguica desse assunto. Mas depois de saber do que se tratava, me interessei muito - so nao fiquei mais tempo la porque o museu fechou.

Eles reuniram 400 trabalhos de varios tipos de midia (principalmente pinturas e fotos) criados a partir de 1960 nos paises da Europa do Leste para mostrar como foram mudando os papeis do homem e da mulher na sociedade. Por exemplo, durante o comunismo, varios artistas pintaram o homem e a mulher idealizados pela propaganda do governo, focando a tal 'genderless society', em que nao haveria diferencas entre os sexos: as mulheres nao teriam as vaidades do ocidente e trabalhariam para o estado num esforco masculino. Na mesma epoca, pinturas lado B mostravam que a propaganda era mentirosa. Mais tarde, no comeco dos 70, veio a liberalizacao da sexualidade do homem e da mulher, transformando a propaganda do governo em cliche ultrapassado. Depois, com a queda do muro, as liberdades capitalistas chegaram acompanhadas de preconceito, conservadorismo e ate xenofobia.

Achei a curadoria o maximo (comandada por Bojana Pejic). A exposicao e muito bem organizada e faz sentido historico.

Claro que passei pela Lomo Shop, do lado do Mumok, e comprei o presente da Thata!

Depois da andanca, dormi no sofa do albergue com medo de nao acordar para o primeiro trem do dia: embarquei para Buda `as 6h50.

((Foto 1: Nao podia fotografar os apartamentos do Palcio de Hofburg, entao coloquei essa foto com porcelanas com motivos naturais pintadas `a mao, usadas pela realeza, que expicita a adoracao de Sissi pelo escapismo das viagens que fazia pelo mundo))

((Foto 2: O bigodinho e a menor das diferencas))

((Foto 3: Esse quadro de 1950 exemplifica bem o conjunto de pinturas (meio que desconhecidas no mundo da arte ate hoje) que obedeciam as ideias comunistas no Leste Eurpeu. Autor: Wojciech Fangor (Polonia). Reparem nas diferencas enre as unhas feitas de uma e a mao caleijada da outra mulher (uma trabalhadora e oura nao). E repare tb na estampa dos vestido da primeira. Note que o homem esta no centro da tela, representando o contraditorio papel principal na sociedade))